Pra ferir

Você não me tem. Não me alcança. Sou ponta de lança, flecha atirada e palavra perdida. Você não me tem.
Seu corpo me toca, suas palavras me ferem, sua visão me turva, mas você não me tem.
Suas mãos me dedilham da mesma forma que a teu violão, mas o som que eu propago, que ecoa madrugada afora, não é seu.
Meus olhos te vêem longe. E teus passos se distanciam cada vez que vejo o silêncio. Toco o silêncio. Sinto o silêncio. Silêncio.
Dentro de mim, barulho. Meu drama, minha teimosia, minha expansão. Você não me tem. Não me alcança.
Não me contém, não me abarca. Não me compreende, não cabe em mim.
Tua voz me canta como as canções não escritas, e você me lê enxergando o enredo da sua história. Você atua a minha chegada, a minha partida. Ensaia as minhas palavras e o que eu sinto. Mas você não me tem.
Toca o meu corpo e não minha alma. Toca a paixão mas não o amor. Toca o riso mas não a gargalhada.
Você não me arrebata.