Desculpem os transtornos, preciso falar sobre trovoadas.

A única porta aberta foi a da tua passagem. 
Você chegou da mesma forma que veio antes, de surpresa. Num dia qualquer, sem muita expectativa.  Embora eu soubesse que você viria, sabia também que não ia ficar.
De la pra cá foram dois passos, uma porta, sem janelas. Apenas o perfume invisível da memória e os sentidos que teimavam em reconhecer e se precaver. Antes de tudo, sou desconfiada moço. 
Não é assim fácil de controlar não. A tigresa sempre guarda um pedacinho seu, que é sempre seu e de mais ninguém. É aquele pedaço que a gente recorre quando a confusão é tão grande que exalam pelos poros. É feromônio. 
É aquele pedaço que insiste em se fazer presente, dizendo sempre, "qualquer coisa eu tenho a mim".  Eu me tenho. 
Daí, na sua passagem, houve entrega, mas não somente. Ao que parece foi tudo encomendando: a presença, a conversa, o vinho. No sentido de que parecia tão certo e bonito que não se pensava na possibilidade do não. 
Tudo reconhecia nós dois. E mesmo que a gente buscasse o contrário, não houve recomeço. De repente era como se o tempo tivesse voltado e estávamos de novo no carro e era só você me dando uma carona pra sua casa. 
Meu pedacinho nunca deixou de me incomodar. Por vezes gritou: sai daí sua louca! Que cilada mulher! - em outras só me cutucava, era tipo aquela dorzinha no canto da unha, que não dói ao ponto de desencravar, mas dói pra mostrar que está lá. 
Aí Deus, a gente tem a péssima mania de acostumar com as dores que não doem tanto assim. 
Mas a vida, essa danada, tá sempre pregando uma peça na gente. Ela é aquela tia mais velha que sempre se acha no direito de dar umas palmadas. Olha, até aproveito a deixa: palmada não resolve. 
Mas daí essa tia chamada "Vida", juntou-se ao pedacinho daqui de dentro e aumentou o incomodo. Colocaram em sua frente um letreiro florescente, com bordas vermelhas e escrito em letras garrafais: C I L A D A!
Dava até pra ouvir a voz dela falando:" vou soletrar porque você parece não entender". O mais engraçado é que a vida tem aquela voz inocente né? É aquela voz que parece não pertencer ao corpo e por isso a gente não leva muito a sério. É uma dublagem muito mal feita. 
Antes de te ver, eu via o letreiro. E até soava aquela sirene quando a gente dá uma resposta errada em algum programa de televisão.
Mais tarde eu soube que você também tava recebendo seus avisos. Dos santos ou do capeta. De verdade, não sei. Mas juntou o meu com o seu e a horta barra pomar tava completa: laranjada! Pepino!
Que banana que a vida se transformou, a separação veio como uma solução batata pra resolver o abacaxi. 
Considero a experiência válida pelo caráter afirmativo de que não tem hora certa pra dois bicudos e ninguém vai cortar o próprio bico. 
Daí, agora, é cada um por si e salve-se quem puder. Tigresas e leões ocupam espaços distintos nessa selva de pedras. Aláfia para nós dois.