Abrigo

Em dias de chuva detesto sair de casa. Sabe, acho que chuva é Deus dizendo pra gente que é dia de folga. Deveria ser automaticamente feriado se o dia amanhece nublado.
Não que eu não goste dos dias chuvosos e nem do inverno, pelo contrário! Adoro o cheiro da terra molhada que combina com o cheiro do café quente, aquele de coador, forte e amargo. Adoro as gotinhas que se formam nas plantas, e o caminho percorrido por elas da superfície ao chão. Amo o barulho da chuva batendo no telhado e invadindo as frestas da janela com o vento forte.
Mas em dia de chuva procuro abrigo. Ficar em casa debaixo do cobertor ou sair agasalhada para que nem os pés fiquem molhados. É que mesmo amando a chuva, no frio que vem com ela, procuramos o calor.
Por muito tempo tenho sido apenas chuva, e tudo transbordava frieza. Parecia que não haveria para mim mais nenhuma conexão, nenhuma frente de calor se aproximava o suficiente pra esquentar. Ando procurando onde me agasalhar desde então, mas algo que funcione, pois quando o frio é na alma não importa o sol que faz do lado de fora, o corpo treme e pede por algo quente.

E foi aí que você chegou. Quando a sensação de que não haveria remédio pra frente fria que se instaurou, quando o costume das coisas secas e quase sem vida já estava se instalando, quando os olhos já nem se importavam com a vida sem cores e eu começava a enxergar beleza apenas no cinzento do mundo, você chegou. Descobri que frio é bom, mas estar aquecida e abrigada é ainda melhor. Você é meu abrigo, me deixa morar em você.