Conto de um encontro futuro

Quando coloquei meus olhos nela, sabia que precisava me aproximar de novo. Anos se passaram desde que nos falamos pela ultima vez, e não havia sido uma boa despedida, um dos dois saiu machucado e eu sabia que a chance de que ela me desse um “oi” era bem pequena, mas tentei.
Cheguei até ela, estava rodeada de amigos, como sempre. Ela era a popular, e eu o reservado. Todos me olharam com aquela cara de “o que você pensa que esta fazendo?” e sinceramente nem eu sabia, mas deveria tentar. Ela estava linda, ainda mais linda na verdade. Os anos lhe caíram bem, seu rosto não era mais de menina, refletia agora a mulher forte que ela se tornara. Ela é. Sempre foi.
Toquei seu ombro, e o sorriso que ela abriu me convenceu a ir até o fim.
- Nem reconheci que era você, esta maravilhosa!
- Você sempre usou esse adjetivo pra mim, e eu continuo concordando! – Ela ri, e meu deus, alguma coisa mexe no meu estômago.
Trocamos varias palavras.  Há quanto tempo esta de volta? Quanto tempo fica? Ainda volta pra lá? O que vai fazer no final de semana?
O silencio que se segue depois dessa ultima pergunta me deixa até constrangido. Quem eu pensava que era pra chegar agora, depois de tanto tempo sem vê-la, sem nenhum tipo de interação, e querer saber sobre seus planos, seus projetos para o futuro, a fim de me colocar novamente no meio deles? Era uma resposta que eu também não tinha, mas que precisava descobrir.
- Ainda não tenho planos para o final de semana- ela responde. - Você tem algo em mente?
Assim, simples e direta. Tão diferente da menina que outrora me encheu de duvidas, que tirou minha paz sem ter certeza de nada, sem me deixar saber o que esperar dela, daquilo.
-Eu acho que nós deveríamos ir à praia. Você já foi à praia depois que retornou? – e ela responde que não, mas que adoraria ir. Trocamos telefone. Ela ainda usa o mesmo, que eu ainda sei de có e salteado.
Deixa  contar como nós nos conhecemos. Ana era uma menina ainda, no auge dos seus 23 anos, e eu com 29, me sentia um velho, sem conseguir acompanhar seu pique, seu sexo, sua vida agitada. Mas com uma vontade enorme de mantê-la por perto, de viver ao seu lado e tê-la como companheira. Mas as coisas para ela sempre foram complicadas, sempre cheias de segredos, de muitos envolvimentos, não queria ter um compromisso, se achava nova e de fato era.
Eu é que queria sossegar, ter um envolvimento simples, bonito e leve. O que ela não poderia me dar, na época. Nos despedimos numa terça feira de calor, a contragosto dela, mas com a minha certeza de que era o melhor para ambos. Honestidade sempre foi meu forte, e nós não passávamos confiança um ao outro. Nada me dizia que podia ser diferente agora, mas tudo em mim dizia pra tentar, ao menos ter a conversa que nunca tivemos as respostas para os questionamentos que ainda pairavam.
Sábado de sol tinindo, um calor de querer andar sem roupa pela rua. Fiz todos os arranjos para ter a casa de praia só pra nós, deixando todos avisados que aquele final de semana, iria fazer manutenção, ia derrubar umas paredes, qualquer coisa que mante-se todos afastados. Quando a peguei, reconheci o perfume floral. Não mudou. O que mais não mudou?
- Não acredito que vou à praia! Faz três anos que não vejo o mar, você entende o que é isso? Eu sou do sal, preciso senti-lo na pele! – E ri, me deixando com varias imagens na cabeça do que eu gostaria que ela sentisse na pele. Meus lábios são a primeira coisa que posso pensar.
Peço que me conte como foi o intercambio, no que ela se graduou, o que ela fez e quantas pessoas diferentes conheceu. Sinto o ciúme começar a subir quando ela fala dessas pessoas, pois fico a imaginar quantas estiveram com ela, e se souberem apreciar, se fizeram da forma que ela gosta. Louco, barulhento. E acima disso tudo, se ela se apaixonou por algum deles, e se o amor foi o mesmo que ela teve por mim.
Eu não fazia ideia, até vê-la novamente, que a amei. Foi amor sim, mas eu tive medo. Me acovardei porque sabia que não teria nada a oferecer a ela. Me achava pouco, e ela merecia muito mais. Agora, tendo ela tão perto, sinto que tudo esta preste a voltar pra mim, como uma montanha que deixei adormecida e agora, com um pouco de barulho, despenca como uma avalanche, pronta pra me soterrar.
Eu quero saber o que ela pensa sobre tudo isso, como ela vê minha aproximação, se é bem vinda de verdade ou ela esta sendo só educada.
- Você continua calado, e eu odeio monossílabo. Sabe que não sou de falar tanto sobre mim.
- Não é mesmo, não é? Mas parece que isso mudou, já estamos na metade do caminho e você não parou de falar.
- Com você sempre foi fácil, João! – Me aqueço por dentro, e abro a janela, sei que ela sempre preferiu o vento natural ao ar acondicionado, logo não vai se importar.
Com você é fácil! Como eu quero acreditar nessas palavras! Porque eu também acho que com ela é fácil, muito fácil: envolver-me, me apaixonar, querer dividir a minha vida e mostra-la para toda a minha família. É fácil querer gritar para todo mundo ouvir que ela é a mulher da minha via, e eu preciso reconquista-la! Fácil, que assim seja!
Quando a gente chega à praia, a primeira coisa que ela faz é tirar a sandália de dedo e pisar na areia. Não quer nem saber onde é a casa, visto que é a primeira vez que a trago aqui. Começa a dar risada e algumas lágrimas caem pelo rosto. Não me preocupo, sei bem o que é ficar longe do mar, e a sensação que temos ao sentir o sal tocando a pele depois de tanto tempo, é quase como sentir Deus. É divino. E só mais uma coisa pode se comparar a isso.
Deixo que ela tenha seu momento, e guardo todas as coisas que trouxe pro nosso final de semana. Ainda sem acreditar que estamos ali, que o universo de alguma forma fez com que nos encontrássemos e que ela aceitou, de bom grado, estar comigo de novo, mesmo que, mais uma vez, a gente nem saiba o que isso significa. Mas dessa vez não vou fugir. Sou melhor agora, e tudo por causa dela.
- Posso saber o que trouxe para beber?- Ela me pergunta. -Você pensou nisso não é mesmo?
- Claro, esqueceu que eu sou o pratico dessa relação? – Oi? Relação? Eu não posso meter os pés pelas mãos, a impulsividade sempre foi dela, ariana nata, regida por Marte e obediente. Mas aquele 1% é peixes, seu signo descendente. Complicada, mas vamos fazer o que?
- Não, não esqueci, inclusive preciso dessa praticidade. Eu ando meio no mundo da lua depois que cheguei, deixei o foco no mestrado e ainda não me situei.
- Espero que você não me dê a mesma resposta de quatro anos atrás. – e dou risada. Mas para afastar o fantasma que pairou agora, uma vez que eu não queria trazer a baila nosso envolvimento passado, por que ainda não temos nada no presente.
- Só de eu estar aqui, você já sabe que não vai ter a mesma resposta. Eu cresci, para de me enxergar como aquela menina.
- Eu amei aquela menina! – Sua respiração é audível, suas pupilas dilatam e ela lambe os lábios, mas de nervoso. Eu só consigo observar a reação do seu corpo.
- Eu tenho muito pouco daquela menina.
- O sorriso ainda é o mesmo. Já é um começo.
Mas que diabos é isso de que tem pouco daquela menina? Eu amei aquela menina e quero-a de volta.
- Trouxe seu vinho, pérgola não é? – sorrio
- Na verdade, hoje sou mais de cerveja. Mas continuo adorando vinho. Embora eu tenha aprendido que o pérgola não é lá essas coisas, meu orçamento agora cabe outras garrafas. – Ela ri – Inclusive, você nunca me contou suas histórias sobre os vinhedos e a seleção das uvas, e como elas combinam com a comida. Ta aí uma historia que quero ouvir.
Conto tudo, do inicio do intercambio, a descoberta dos vinhedos, a seleção das uvas e a minha paixão por vinhos. E ela ouve com tanta atenção, me entusiasmando a continuar contando, a continuar falando.
Depois de curtir todo o sol possível, e beber bastante, pois na pausa entre a conversa, não havia beijos, embora eu quisesse muito, mas havia bebida. Pego o violão, e ali mesmo na areia, toco todas as musicas que quis tocar pra ela em outros tempos. Seu rosto é tão lindo, e seu sorriso me ilumina tanto que eu penso em compor algo em sua homenagem. Mas não faço isso agora porque ela me beija, e como cantou Moska, eu deixo o beijo durar, o deixo curar tudo que a gente não viveu e o que o tempo levou.
- Não me diga que você não quer um envolvimento. – Nervoso, com medo, mas ainda assim, cheio de coragem.
-Nunca mais você vai ouvir isso de mim.

E eu amo essa mulher, na areia, e a gente fica ali até que o sol se ponha e a lua já esteja alta no céu.  E é a outra sessação do divino.