Conto de um domingo futuro.

Eloá nasceu num dia de inverno, mas veio cheia de calor. Minha primeira menina.
Sua chegada foi esperada e celebrada com todo amor que podia existir naquela pequena cidade. Estivemos preparando o mundo pra te receber, filha.
Cresceu como toda criança: espevitada, falante, elétrica. Junto com o irmão, fazia a festa. E a família, grande, era sua diversão. Garota esperta essa Eloá, camaleõa, sabia ser exatamente o que precisava pra conseguir o que queria. Ia dar trabalho no futuro, pois não aceitaria menos do que merecia, e é assim que a quero. Empoderada.
Faltam poucos dias para celebrarmos o dia dos pais. É o 4º com Eloá presente, e agora nem sabemos mais como era comemorar um dia dos pais só com o primeiro filho, Cadu.
Cadu é filho do primeiro casamento de João, e eu o amo como se também fosse meu. Sua mãe faleceu quando ele ainda tinha 5 anos de idade, e desde então mora conosco. Agora, com 9, já me vê como mãe, mesmo que a memória da falecida seja mantida e honrada. Cadu é um doce de criança. Talentoso para instrumentos musicais, sensível, inteligente, e ama a irmã mais nova acima de tudo, estando pronto para ajuda-la quando ela precisa.

Conversando com os dois, decidimos criar o presente que João receberia no dia dos pais. Fazer o máximo possível com nossas próprias mãos, aliás, com as mãos deles. As duas pequeninas de Eloá já coçavam de antecipação para mexer com tintas, lápis e canetinhas coloridas, e Cadu não via a hora de ver a cara do pai quando recebesse o que ele já chama de “melhor presente de todos os tempos”, pois agora ele esta numa fase de descobertas, onde tudo que é novo é a melhor coisa de todos os tempos. E só tem 9 anos.
Comprei a tela, e pedi a impressão do desenho que o Cadu fez previamente. E durante algumas semanas, todas as quartas-feiras, o dia mais livre que temos em agendas apertadas, (sendo o dia mais ocupado do João também) íamos os três a casa dos meus pais, aproveitar o espaço grande da garagem, para pintar o quadro. A pintura era livre, já que não havia condições de exigir destreza e agilidade de uma garota elétrica de 4 anos, que começava a pintar e em poucos minutos já queria fazer outra coisa.
Cadu foi quem fez o melhor trabalho, pintando sempre com um padrão meticuloso, como o bom taurino que é. Escolhendo as cores favoritas do pai, e as dele também. E por vezes se irritando quando, por impulso, Eloá esbarrava nele, fazendo com que borrasse seu desenho lindo. Mas Eloá, esperta, tratava logo de se desculpar e dizer, mansa, que era só pra deixar mais “cororido”, e assim a gente ia, correndo o quanto podia para finalizar aquele trabalho.
O desenho era simples, mas tinha tanto amor que era impossível não ver beleza. Cadu desenhou o pai no meio, segurando a mão de cada um deles. Eu não estava presente, e segundo Cadu, no dia das mães ele faria questão de fazer um só pra mim.
O dia dos pais chegou, e é um domingo! Não podia ser melhor, porque não haveria desculpas para não comparecer ao almoço de comemoração. Como falei, a família é grande, e decidimos juntar todo mundo. Meus pais, a família da minha irmã, a minha, o irmão de João, seus pais, a família do meu cunhado. E todas as crianças. Vai ser uma confusão, e eu já posso imaginar.
João acordou com as crianças pulando na cama.  No dia anterior guardamos o quadro na casa de minha sogra, que seria a responsável por leva-lo a casa de praia, onde nos reuniríamos mais tarde. Entre tantos beijos e abraços, e gritos de “feliz dia dos pais”, João foi mimado do jeito que gosta, com café na cama, conchinha com os filhos e muito amor.
Da porta eu via aquela cena e só conseguia pensar em quão abençoada eu sou, e como todas as coisas aconteceram da forma que deveriam para que eu tivesse isso hoje. É aquele ditado né? Deus escreve certo por linhas tortas, e eu não modificaria nenhuma vírgula.
Todos de pé, as crianças já de banho tomado. Cadu se arruma sozinho, e Eloá é trabalho de João. Todos os dias é ele que a arruma, para onde quer que seja. Ele é louco pela menina, e faz questão de demonstrar isso, a ponto da própria saber que o pai faz todos os seus gostos. Se ela diz “azul”, não importa se é verde, vira azul. E a bichinha usa e abusa dessa servidão apaixonada para fazer o que quer.
Lembro-me de uma vez, estávamos as duas na minha cama, no primeiro andar, e eu precisava de uns livros que se encontravam no escritório, no térreo, onde João trabalhava. Chamei por diversas vezes, mandei mensagem, tal era minha preguiça de descer e vontade de permanecer na cama com ela. Ele nada de me responder, mas era óbvio que escutava, mas também tinha preguiça.  Eloá prontamente vira pra mim e fala:
- Deixa que eu chamo agora mamãe.
E chamou uma única vez. “Papai!”. Em questões de minutos ele entrava no quarto perguntando o que a leoazinha dele queria.
- Não disse que ele vinha? Mas não é pra mim não, é pra mamãe dessa vez!
João não teve outra alternativa que me fazer o favor, e até hoje eu uso desse artificio para conseguir algumas pequenas regalias. E ela só tinha 3 anos de idade, e já sabia o poder que tem sobre aquele homem. E que homem!
As crianças prontas na sala, João na cozinha, quando Eloá da por falta do presente do seu “papai querido”, e vira logo pra pergunta ao irmão “onde esta a surpresa de papai?”. Silencio absoluto, até que João ri da cozinha, e Cadu meio bravo afirma, “Não pode falar da surpresa Eloá, é surpresa ué, tem que esconder!”. Eu desço e peço pra João, que ouve tudo, ficar quieto.
- Mas não pode esconder nada do papai e da mamãe, isso é feio, você sabe!
Cadu fica calado porque sabe que a irmã tem razão. Eu e o pai ensinamos isso o tempo todo. Não esconda nada, absolutamente nada. Estaremos aqui sempre pra compartilhar as coisas da vida, conta pra gente!
Que menina danada! João ergue as sobrancelhas como quem diz “e agora, vai fazer o que?”
- Eloá, minha flor, você tem razão, não pode esconder nada do papai e da mamãe, por que nós sempre vamos ajudar vocês dois no que precisarem, somos os melhores amigos, não somos? Mas dessa vez nós estamos fazendo uma surpresa para o papai, então ele não pode saber agora o que ele vai ganhar de presente, mas assim que chegar a hora, deixamos você contar a ele, ta bom? E não esta errado porque ao menos um de nós sabe o que estamos fazendo ta bem?
É difícil explicar para uma criança que já aprendeu que é errado fazer tal coisa, mas ainda assim você quer que ela faça. É como ensinar que mentir é feio, mas quando precisa, pede que a criança o faça por você. Trabalho árduo educar essas coisinhas, que mais do que as palavras, observam os exemplos, as atitudes.
Chegamos na praia cedo e todos foram procurar suas tarefas para resolver. Ninguém ficou de fora. O restante das pessoas foi chegando aos poucos, mas até o meio dia todos já estavam no local. Comida pronta, crianças com fome, muito barulho e confusão, decidimos entregar os presentes.
Eloá correu para os braços da avó, pedindo que a mesma pegasse o quadro de seu pai, que ela tinha que entregar e não aguentava mais de ansiedade. Juntos, ela e Cadu entregaram o presente a João, que quando abriu, chorou. Ele é das artes, e por trás daquela cara de homem sério, impenetrável, reside um menino carente de atenção e de mimos, cheio de amor para dar e avido para receber também. Foi emocionante ver os dois pequenos explicarem como tinham feito, como foi difícil guardar surpresa, e como o amavam. O abraço que receberam de volta foi prova de que o amor era mútuo, reciproco.
Eu e minha irmã seguimos uma linha parecida com o presente que João receberia, porém, não pintamos, porque nenhuma das duas nasceu com dom para artesanato, logo, fomos agraciadas com o trabalho de um artista da região, maravilhosa, que pintou uma foto recente da família. Nela estávamos eu e as duas crianças, meus pais, minha irmã e sua pequena. E o gato. Meu pai também foi emoção pura quando recebeu, o que ele chama de “melhor foto da família”, mas a surpresa veio da pequena leoa, que não se aguentava de inquietação com aquela foto.
- Mas mãe, porque o papai não ta na foto? Ele não é família também?
Só consegui abrir a boca, sem som, e ela continuou.
- E a vovó Ruth? O vô Du, e a Melissa? A família não ta toda aqui, tem que ser ela toda mãe!
No silencio que se fez em toda a casa, puxei aquela pequena pro meus braços, sentindo tudo queimar de amor por dentro. Como que aquele ser, tão pequena, tão nova em suas experiências de vida, com tanta coisa pra ver no mundo, podia dar lições tão sábias para todos os marmanjos ali presente?
De verdade, a família não estava toda no quadro. E para ela, não existia isso de “uma parte da família esta aqui Eloá”, porque o pai dela não se desconectava daquela família, nem seus avós paternos, seus tios e primos. Até mesmo a família do meu cunhado, pra ela, deveria estar no quadro.
João foi quem teve a ideia brilhante: - Vamos fazer uma foto hoje, ta todo mundo aqui, e ai a gente vai ter a foto de toda a família, ta bom minha pequena?
Seu sorriso foi nas alturas, e enquanto a gente puxava o Cadu pro abraço, todos os outros riam e se felicitavam. E logo todos tentavam abraçar o nosso pequeno núcleo, com aquela leoa no meio, que com dificuldade gritava:
- Ai, eu vou “fufoca” de amor!