O que é apropriação cultural?

por Valéria Martins

Ultimamente muitas mulheres estão assumindo os seus cabelos naturais. Essa explosão de cachos e crespos tem sido vista como tendência e moda, sendo publicitada a todo tempo pelas mídias. Esta é uma forma de encarar o que esta acontecendo, mas esse não é o real significado da volta aos cachos.
Em todo o tempo o cabelo crespo e cacheado foi (e ainda é) visto como feio/mal cuidado/ruim, e mantê-lo fazia com que muitas mulheres, além de se sentirem/acharem feias, não conseguissem um emprego, por exemplo.
Isso se deu porque ao longo do processo de colonização do Brasil, o padrão de beleza europeu (branco, loiro, liso) se estabeleceu como certo e bonito, enquanto que o negro foi colocado na posição de feio/ruim. Isso tudo foi e ainda é reforçado com o capitalismo nos dias atuais. Porém, nos últimos anos temos uma tomada de consciência por parte da população negra, que começa a entender e aceitar sua beleza, e a dizer NÃO ao padrão racista que não nos representa.
Dessa forma, o uso dos cabelos naturais hoje no Brasil, pode ser comparado ao seu uso nos anos 70 nos EUA: um ato político por parte do movimento negro.
Afirmar que é apenas moda é negar essa conscientização da população negra, e principalmente das mulheres negras e então se apropriar de um discurso para tentar manter a hegemonia de beleza branca.
A apropriação se dá de varias formas, mas seu objetivo é e sempre será o mesmo: a manutenção de uma hegemonia. Isso pode ser observado com a cultura negra afro-brasileira, a todo tempo nos foi, e ainda é negado o direito aos nossos símbolos e a viver nossa cultura, e o resultado é a perda da identidade negra pelos negros e negras.
Um exemplo clássico de apropriação cultural é os turbantes. Seu uso tem vários significados, desde religião, classes sociais e adorno. Quando os africanos são escravizados no Brasil, passam a utilizar os turbantes como forma de se reconhecerem entre si e de resistência. A partir daí o turbante vira um símbolo de luta para o movimento negro do Brasil, mas isso não significa que na África de 1500 ele já não o era. Hoje nosso símbolo é visto como um produto da moda, mas o que é a moda? Uma tendência ditada por estilistas renomeados (em sua maioria homens, brancos e europeus) e que é passageira, podendo estar no auge, sair e voltar dele em determinado tempo. Logo, renegar os turbantes à tendência da moda é banalizar seu uso e significado, tão ricos e importantes para a cultura negra, e isso me ofende e muito! Nós, mulheres negras, enxergamos os turbantes como coroas (e eles o eram na África). Coroas que adornam e exalta a beleza negra, beleza essa que foi negada e rechaçada ao longo de todo o tempo. Não vamos permitir que roubem nossas coroas e nos ditem quando usa-lo e quando deixar de usar.
Apropriação é racismo.
O racismo pode se apresentar de várias formas. No Brasil vivemos o mito da democracia racial, onde o racismo é velado, fingem que não existe, como afirma Munanga.
Muitos adoram afirmar que o fato de sermos um país miscigenado, que "nasceu" da mistura entre negros, brancos e índios, nos torna todos iguais. Bem que eu queria! Tem uma frase que afirmam ser de Jorge Amado que diz assim: "Branco puro na Bahia? Onde? Preto puro na Bahia? Cadê? Somos todos miscigenados, graças a Deus!", isso seria ótimo, mas poucos sabem que Jorge Amado era um dos defensores do processo de embranquecimento na Bahia, e em seus livros o negro sempre seguiu os estereótipos (mulata exportação, boa pra cama, negro garanhão bom para sexo, malandro e preguiçoso) logo, assim como a maioria da população, a prática não condiz com a teoria.
A apropriação cultural é só mais uma das formas que cultura hegemônica encontrou para se sustentar. Destitui os símbolos de um povo, para restitui-los como de todo mundo, globalizado a cultura. Mas como afirmei ao longo das outras perguntas, negar uma cultura em detrimento de outra é racismo, e é isso que a apropriação faz. E não diminuam uma dor que vocês não conhecem, pois quem sabe o que é racismo ou não, somos nós, que sentimentos na pele diariamente.


Texto em 16/06/2015, publicado originalmente na página Feminiciantes.