Ou equaliza ou vai parar na estante.

Eles viajaram juntos. Decidiram ir mesmo sem saber o que aquilo significava. Ficaram juntos todos os dias, praticamente em todos os momentos. Por um momento era como se nada tivesse acontecido. Eram eles novamente. Os dias seguiram fáceis e a conversa flui, mesmo porque ambos tinham apenas um ao outro no meio de toda aquela gente.
Todas as noites havia programação ao ar livre e mesmo com o cansaço do dia, todos aproveitavam a noite. Com eles foi um pouco diferente, nenhum dos dois estava entusiasmado para ir, mas foram, tinham que aproveitar a noite em terras estranhas. Precisavam sentir todas as sensações que pudessem receber enquanto estavam ali. Mesmo cansados.

O primeiro show foi uma surpresa. Podemos dizer que nenhum dos dois esperava muita coisa daquela noite e daquela apresentação. Fazia anos desde que deixara de acompanhar aquela artista, então imagina sua surpresa de se sentir bem naquele local? Era a segunda noite deles naquelas terras. Primeira programação noturna.
Mesmo com o clima pesado, eles tentaram parecer normal. São ótimos artistas, pois até os mais próximos nada desconfiaram. A artista daquela noite tocava e cantava muito bem, pelo menos um deles realmente curtiu o show. Ainda bem que eles haviam ido, um dos dois pensava.
Ela misturava músicas antigas com as do novo CD, como todo artista. E nessa mistura ela começou a cantar Equalize. E ela estava nos braços dele.
Ela nunca quis tanto chorar e deitar no colo de alguém como ela queria naquele momento. Todas as sensações que ela esperou sentir ao longo da viagem foram sentidas naquele pequeno espaço de tempo. Ela foi consumida.
Permaneceram abraçados durante toda a música. Balançavam-se e um ao outro. Cantavam e por vezes murmuravam a música no ouvido do outro. Por vezes também tentavam se olhar, sem muito sucesso.
E logo depois ela tocou "Na Sua Estante". Ela sentiu falta de ar. Ela não conseguia respirar e não faz a mínima ideia de como não chorou. Ela olhava para o céu e piscava pra não deixar as lágrimas descerem. Ele a abraçava forte e ela se agarrava mais a ele. Perdida, era como se sentia. Mesmo que soubesse a que pertencia aqueles braços, sentia-se perdida na gama de emoções que lhe assaltaram.
 "Aproveitando cada segundo antes que isso aqui vire uma tragédia." Ela continuava cantando no palco, e eles cantando no chão.  Ela sentia que precisava sair dali. Ela queria fugir ou gritar. Ou ambos. Queria muito gritar e tirar tudo de dentro dela.
Teve plena convicção de que nunca se sentiu assim. 
A sensação de impotência lhe deixou sem forças, e fraca só podia tentar uma das opções, fugir. Assim fez, e tentou sair daqueles velhos amigos (os braços!), com a desculpa – embora verdadeira- de que precisava de água. Água! Enfim salva.
Então saiu no meio da música. Não deixou a artista terminar porque não conseguia suportar as queimaduras que recebia do calor do abraço. Dos corpos colados. E da garganta seca pelos gritos não proferidos. E pelo choro contido.
Tentou não ouvir quando ele a chamou entre a multidão que a cercava enquanto andava. Tentou se perder para não ser seguida. Sem sucesso. Foi achada, acompanhada, e guiada na ida e na volta.
A música a seguir não era conhecida. Seus pensamentos daquele dia também  não o são.
Mesmo essas palavras nunca serão escritas, ou divulgadas.

E aquele sentimento, ou equaliza ou vai parar na estante.