Guerra de dois.

Papeis pelo chão da casa e a TV ligada em volume ambiente, só aquele zumbido e a tela cheia de formigas da hora em que não se tem mais programação.
Portas e janelas abertas e um vento frio se espalhando pela casa até levantar os papéis do chão e rodopia-los como em uma dança coreografada, de um ritmo próprio. Luzes acesas para tentar espantar a escuridão que outrora tomava conta de todos os cantos. Luzes acesas para restituir o calor que outrora emanava dos quartos e cantos da casa. 

Lençóis espalhados em cima da cama e travesseiros jogados no chão como alvos abatidos em uma guerra, guerra de um só.
Casa cheia de vazio. Paz obtida pela guerra. Fim do conflito, inicio do meio dia de esperança também vazia. Um cenário desolador, nada parecido com o que se tinha em mente.
Daquele dia em diante nada mais seria como se queria, e nem se sabia mais o que era querer. Guerra de um só. Conflito de um só. Solidão de dois.
Dois que não se entendem mais, dois que não conseguem mais se ver, dois que desistiram de tentar entender e tentar resolver. Um que repentinamente decidi desistir e chutar o pé da barraca, joga tudo pro ar e manda um “dane-se”, que se dane essa vida medíocre e essa desistência barata, “eu desisto também”. Um que já havia desistido há algum tempo, que não via sentido algum em continuar algo que já não levava adiante, que estressava, que esgotava.
Guerra de um, contra o outro.
E agora papéis pelo chão e a TV ligada em volume ambiente, só aquele zumbido e a tela cheia de formigas da hora em que não se tem mais programação.
A casa e o peito vazio, a casa e o peito frio, a casa e o peito gritando saudade.