Não é dia

     Hoje não é um dia bom. É um dia pra ficar no quarto, embaixo do edredom, coberta dos pés a cabeça. Hoje não é um dia bonito. Ela levantou e se olhou no espelho, perguntou ao reflexo quem era ele pois não se reconheceu, o cabelo ta estranho, a pele ta seca, o coração também. Hoje não é um dia bom, ela disse, e queria desligar-se do mundo, e melhor, queria que o mundo se desligasse dela, a esquecesse. Tchau mãe, tchau pai, tchau amor e amigos ela queria dizer queria também trancar a porta do quarto e lá ficar, ficar até sentir que voltou ao normal, o normal dela...

    Ela queria sumir, mas não sumiu, queria voltar, mas não voltou. Deitada ficou, ouvindo o tic-tac do relógio, sentindo o tempo passar. Pensar, pensar, pensou e muito, na vida, em seu relógio azul, seu guarda-roupa branco, sua caneta preta. Pensou na chuva lá fora alagando tudo, pensou nos que estão jogados ao relento, nos que não tem o que comer. Olhou ao redor e fitou o teto. Eu tenho um teto, ela pensou, e ter um teto deve ser o sonho de muitos. Sorriu triste. Levantou. Olhou-se no espelho novamente. Não seja ingrata - ela ouviu do reflexo – levanta dessa cama garota, por pior que possa parecer o mundo continua girando. Você tem as armas, use-as da forma correta, mude sua forma de pensar, mude sua atitude, corre, vai transformar o mundo lá fora.
   E ela foi, fechou a porta do quarto. Não tinha mais dez anos, era uma mulher agora e quer revolucionar o mundo.